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:: Visita a Pirapitingui ::

Pirapitingui - História de um exílio

A colônia-asilo de Pirapitingui, no caminho entre Itu e Sorocaba, ganhou há pouco tempo o nome de Hospital Dr. Francisco Ribeiro Arantes. Mas quem pensa que vai encontrar um hospital nos modelos atuais, precisa voltar no tempo e conhecer a história de um dos maiores leprosários do Brasil.

Afinal, quem entra pela portão do km115 da rodovia Dr. Waldomiro Camargo Correia, vai se ver em meio a uma cidade. Nela, um prédio em ruínas dá indícios de uma longa história de segregação vivida desde a década de 30.

Andando mais um pouco pelas ruas arborizadas, a impressão que se tem é de estar numa cidadezinha do Interior, tal a calma e a tranqüilidade. Logo se vê as casas bigeminadas, com antenas parabólicas, que abrigam hoje um total de 499 pessoas, entre crianças e adultos. Alguns conjuntos maiores indicam que a cidade trata de seus doentes: internados nas enfermarias e nos pavilhões estão um total de 132 pessoas.

Hoje, Pirapitingui ocupa um espaço de 330 hectares para 631 moradores, sendo 122 crianças e jovens de 0 a 18 anos, conhecidos como "comunicantes". "São os filhos, netos, cunhados e agregados que residem na área comunitária com seus familiares", explica Maria Aparecida Hilário dos Santos, diretora da área comunitária do Hospital Dr. Francisco Arantes.

A presença de crianças, contudo, só foi permitida quando foi criado o Estatuto da Criança e do Adolescente em 1990. "Desde então, o perfil dos moradores do Pirapitingui está mudando", acrescenta Maria Aparecida. Segundo a diretora, com o tratamento da poliquimioterapia (PQT), introduzida nos anos 80, a média de idade cresce a cada ano no Pira: acima de 60, chegando alguns a viverem até mais de 90 anos. "Aqui, não têm estresse, vivem com a família e são bem alimentados, o que só leva a aumentar a média de idade", observa.

Os mais antigos, contudo, carregarão para sempre as marcas de um passado de sofrimento. Em 1926, foi criada a lei Compulsória que caçava literalmente as pessoas que não se apresentassem espontaneamente para o confinamento. Para não se separarem das famílias, as pessoas se escondiam no mato , mas acabavam caçadas como bichos. Em compensação, para outras, o exílio era um alívio contra a discriminação e o estigma que a doença gerava.

A segregação, na verdade, foi oficialmente recomendada pela 2ª Conferência Mundial da Lepra de Bergem, na Noruega, em 1909.

Geralmente, os asilos-colônias eram construídos longe das cidades. No caso de Pirapitingui, ele foi construído no meio do caminho entre Itu e Sorocaba; 15 quilômetros da cidade conhecida como Berço da República e 20 de Sorocaba. Hoje, contudo, um dos bairros mais populosos de Itu (distrito de Cidade Nova), encurtou esta distância.

Uma comissão, constituída em 19 de abril de 1929 e integrada pelos prefeitos de Campinas, Orozimbo Maia (presidente); de Jundiaí, Waldomiro Lobo (secretário) e João Machado de Araújo, de Sorocaba (tesoureiro), adquiriu, em 6 de novembro de 2929, no bairro da Tapera Grande, dois sítios no total de 136,60 alqueires (cerca de 330 hectares), para erguer um leprosário no local. Por intermédio da diretoria de Terras e Colonização do Governo do Estado, em 1931 foi construído um conjunto de 60 casas de madeira como medida emergencial.

Oficializado em 1933, pelo Decreto 5965 de 30 de junho, o asilo-colônia foi inaugurado em outubro de 1937, sob a direção do médico Manoel de Abreu.

Segundo o livro "Cidade dos Esquecidos", de Kátia Auvray, o contínuo aumento de internações - 1.437 doentes em 1935, incluindo crianças - gerava freqüente necessidade de ampliações do local. Por razões sociais e médicas, o casamento e a co-habitação eram energicamente desaconselhados e, se possível, proibidos. Caso houvesse uniões, a procriação era desencorajada. Nos anos 40, os médicos de leprosários acreditavam que a doença se agravava após as uniões, devido à excitação e abusos sexuais.

Em janeiro de 1939 havia 2.116 internos, sendo 1260 homens e 747 mulheres, além de 109 menores. Entre os anos de 1939 e 1942, a hanseníase foi à doença que mais vítimas fez em Itu.
Basicamente, o Pirapitingui mantém a estrutura de sua criação, que foi projetado como uma cidade para ter lojas, bares, restaurantes, sapataria, farmácia, velório, cadeia, cemitério, etc. Fábricas de tijolos, ladrilhos, colchões, refrigerantes (gasosa), sabão, carpintaria, serraria e ferraria supriam parte das necessidades dos internos, além de ocupar a mão-de-obra ainda válida.

Hoje, o Pirapitingui tem um orçamento de R$ 13,5 milhões para manter os 631 moradores e 585 funcionários, sendo 40 médicos.

O diretor-geral do Hospital, Márcio da Cruz Leite, conta que ficou envergonhado quando participava de um encontro em Brasília para pedir verbas para os asilos-colônias. "Perto da realidade de outros estabelecimentos no Brasil, o Pirapitingui vai muito bem", conta o diretor, que enfatiza a erradicação da hanseníase em São Paulo, embora para atingir a meta da Organização Mundial da Saúde, o governo brasileiro deve ser mais incisivo no combate à doença, através de uma campanha maciça na TV, nas escolas e igrejas, enfatizando o diagnóstico precoce, pois só com apoio da sociedade vai se combater a doença.

Após a revogação da lei "Compulsória", em 1962, o próprio paciente não desejava mais a alta. A miséria e o abandono familiar inviabilizavam o retorno à vida social.
A lei n° 529 de 1949 alterou a denominação dos leprosários do Estado, que passaram a se chamar sanatórios.
 

• A PRESENÇA DOS FRANCISCANOS

Com a morte de Dom Frei Pascásio Retler, que foi o representante da Província Franciscana da Imaculada durante os últimos treze anos no Pirapitingui, frei Genildo Provin e frei Jorge Paulo Schiavini estão fazendo o trabalho pastoral e social no hospital. Antes de Dom Pascásio, que ficou durante 22 anos trabalhando como bispo em Bacabal (MA), Frei Alípio Both marcou sua presença no local.  

• MORADORES DO HOSPITAL DR. FRANCISCO RIBEIRO ARANTES
- Internados socialmente residentes na área comunitária 266
- Internados socialmente nas enfermarias 64
- Internados socialmente nos pavilhões 68
- Comunicantes (*) de 0 a 12 anos 79
- Comunicantes de 13 a 18 anos 43
- Comunicantes adultos 111
- Total 631

 (*) Os comunicantes residem na área comunitária. Eles são: filhos, netos, agregados etc. Esses dados foram fornecidos em novembro de 2005 pelo hospital

Fonte site:
www.franciscanos.org.br/sefras/hanseniase/colonia01.php



                

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