:: Os primeiros tempos ::
Assim sendo, logo após a sua constituição, iniciou-se uma nova e difícil fase, ou seja, encontrar um local para a sua sede definitiva, mas, não poderia ser um local acanhado, teria que ser tão grande quanto a grandeza do sonho de seus fundadores, que nada mais pretendiam do que montarem um centro espírita, orfanato para meninas, asilo para velhos, de ambos os sexos e a casa da mãe solteira, até ali, eram sonhos, nada mais que sonhos.
Naquela época, todos eram inexperientes, e estavam certos de que receberiam total apoio dos familiares, amigos, correligionários e autoridades públicas, embalados pelos sonhos, viam em todos que os cercavam futuros colaboradores, jamais supondo que houvesse tanto egoísmo, tanta incompreensão e insensatez. Ouvindo de algumas pessoas, principalmente de familiares, admoestações como esta “por que cuidar de filhos dos outros, cuide dos seus”. Naquela altura, os parentes, amigos não “mui amigos”, as autoridades públicas, todos os evitavam, todos sabiam que deles necessitavam, e que deles ao aproximarem solicitariam colaboração. Por outro lado, se sentiam desamparados pelos irmão encarnados, o mesmo não se dava com os irmão desencarnados, que a cada passo, a cada desilusão, envolvia-os em suas forças de amor e carinho, incentivando-os carinhosamente.
Foi assim, que logo cedo, os irmãos encarnados, de que os fundadores necessitavam que fizessem parte do sonho maravilhoso, deixaram claro que o sonho cabia aos fundadores e cabia a eles tornarem realidade.
Corajosamente, foi procurado um prédio que pudesse acolher as atividades, porém, foi impossível, o sonho era grande, que não poderia ser contido por quatro paredes. Mudança de rumos, passaram a então procurar um terreno sem benfeitorias, surgiu então um grave problema, quando encontrou-se um terreno bem localizado com caída para a frente e bom preço, os Mentores Espirituais, simplesmente não aprovaram. Era uma canseira tremenda, trabalhos diários para o ganhar o “pão nosso de cada dia”, e nas horas de lazer a procura insistente pelo terreno, e sempre vinha a resposta dos Mentores – “Não é este!”.
A coisa chegou num ponto, que o Sr. Dalmace Capell meio desesperado, pediu ao Mentor que, para facilitar as coisas, ele indicasse o terreno desejado e pronto, ficaria tudo resolvido, sem tanto esforço, trabalho e perda de tempo. A resposta veio imediatamente em forma de ensinamento e orientação. Se ele indicasse o terreno desejado, aparentemente seria tudo mais fácil, porém, era preciso que os encarnados procurassem e encontrassem as soluções para o problema, pelo próprio esforço e ação, pois, assim fazendo se educariam e fortaleceriam intimamente, que ele não iria solucionar o problema, mas que, estaria sempre ao lado deles, incentivando para que encontrassem a solução.
Foi numa sexta-feira, em que o Sr. Dalmace meio perdido, na região do ABCD, chegou à praça do Piraporinha, encontrando sem querer, um velho amigo e Vice-Presidente da Sociedade, Sr. Deraldo Gomes da Silva, que inteirado dos motivos da presença do amigo de diretoria, disse apenas por dizer, “Olhe, ali existe um corretor de imóveis, ele vende terrenos na região” e, após dizer isto, se despediram. O Sr. Dalmace dirigiu-se então ao escritório do corretor e lá encontrou o Sr. Cumico e ambos se dirigiram para a antiga Avenida Jurubatuba, que era então uma estreita estrada de terra, sem iluminação ou qualquer outra melhoria, lá esta o terreno que se constituída de 10.002 m² de barro e lama, tinha chovida horas antes, e o Sr. Cumico, para não se enlamear, lá de cima da rua apontava para baixo; “É este o terreno”. O Sr. Dalmace, abanando a cabeça dizia enquanto descia a rampa – “Não! Não, pode ser esse o terreno, é só barro.”, porém, algo fazia com que ele continuasse descendo a rampa, sujando-se todo de lama. Chegando ao meio do terreno, junto a uma touceira de bambu, sentiu uma mão estranha, ao mesmo tempo que ouviu uma voz interior a dizer – “É este o nosso terreno!”.
Ainda surpreso e espantado com a escolha do Mentor, olhando atentamente o terreno, perguntou: “Por que este terreno que é só lama e barro e ainda caído para trás, por que não aqueles que vimos anteriormente, altos, secos e sem barro e lama, por que? A resposta `a sua pergunta não veio, porém, tudo se repetiu outra vez, a mão em seu ombro e aquela voz interior dizendo: “É este o nosso terreno!”.
Surpreso é verdade, porém ao mesmo tempo alegre e feliz por ter encontrado, depois de tanta procura, o imóvel do agrado do Mentor.
Muito tempo se passou, e aquela pergunta era constantemente feita pelo Sr. Dalmace “Porque este terreno?”.
Uma vez escolhido o terreno e devidamente aprovada a escolha pelo Mentor, só restava comprá-lo e para tanto, o Sr. Dalmace compareceu à Praça Bom Jesus de Piraporinha, n° 320 - 1° andar, escritório do Sr. Isaac Aizemberg, proprietário da área desejada. Lá chegando em companhia do corretor, Sr. Cumico, foram apresentados ao Sr. Isaac e a seu pai Sr. Samuel Aizemberg, uma família de judeus desbravadores, trabalhadores por excelência, compravam terras em locais ermos e nelas construíam casas, formando vilas e bairros, assim o fizeram no Nazaret, Santo Inácio, Vila Rosa e Piraporinha.
Entabuladas as negociações, eles mantiveram-se intransigentes quanto ao preço e condições de pagamento, que eram totalmente adversas às forças financeiras da Sociedade. A tentativa de acordo, firmava-se no intuito das posses financeiras. Todo o momento o pensamento voltado a Deus, pedindo auxílio aos mentores, até que, em dado momento, foi falado sobre o interesse de se construir um orfanato, foi quando tudo se modificou, pai e filho pediram licença, se retiraram para uma sala vizinha, naturalmente, para discutirem entre si o assunto. Dali a algum tempo, de lá saíram, sorrindo e dizendo que estava tudo certo, que aceitavam a nossa proposta. O Sr. Cumico, não acreditava no que ouvira, conhecia bastante o Sr. Isaac e sabia que ele não baixava o preço do que vendia. Entretanto, todos os presentes ligados a Sociedade, sentiam a presença de amigos espirituais, e sabiam que tinham sido ouvidos e que tinha recebido sua colaboração.
Naquele mesmo dia, foi assinado o contrato provisório de compra e venda, ao preço de CR$ 55 mil cruzeiros (moeda da época), sendo CR$ 25 mil à vista e o saldo em prestação de 800 cruzeiros mensais.
Muito bem, a Sociedade tinha a posse de um terreno medindo 10.002 m², sem benfeitorias, apenas cercado e muito mal cercado de arame farpado, o resto era barro, lama e muito mato. Para desespero do Sr. Presidente, a lama era tanta, que continuava perguntando a sí mesmo, do porque da escolha dos guias espirituais, porque optaram por aquela área, tão feia, inóspita, sem estrada de acesso, sem luz, sem água encanada, tão erma. Perguntava a sí mesmo, não perguntava aos guias espirituais pois, intimamente sentia que algo muito importante, além dos interesses e valores materiais deveria existir que justificasse tão absurda preferência.
Somente depois de decorrido um ano e meio da data da compra do terreno, é que foi possível a construção, já que, a compra do terreno houvera exigido empenho demasiado para o pagamento dos CR$ 25 mil de entrada e os CR$ 800 cruzeiros por mês. É, bom registrar que a Sociedade não existia realmente; existia de direito, no papel, não havia começado nenhuma atividade, pois, nem sede possuía, as dificuldades econômicas eram enormes, sem receita própria, sem ajuda material, todos os seus compromissos financeiros, eram cobertos por seus diretores, porém os diretores não eram ricos, eram pobres e tinham compromissos particulares e familiares, somente dois diretores por serem mais abastados, queremos dizer, tinham profissões mais rendosas, e destinavam boa parte do fruto do seu trabalho à Sociedade, e não fosse pelo sacrifício, abnegação e altruísmo deles, nada existiria, nem a compra do terreno e muito menos a construção. É preciso que se repita, a Sociedade nesta fase, não recebia donativos, não se beneficiou com nenhuma doação de material de construção, mão de obra, ou recebeu qualquer outra ajuda, quer de particulares, quer de poderes públicos, foi tudo, alcançado com muito suor, luta e amor.
Em agosto de 1967, iniciou-se a construção. Inexperientes nesse tipo de atividade, a empreitada não foi mal fadada, graças ao sogro do Sr. Dalmace, o Sr. Mário Giuseppe Gurian, afeito ao ramo de construção, chefe de obras, o velhinho, já com 67 anos de idade, era um jovem em ânimo e disposição, aliou a sua técnica e seus conhecimentos aos impulsos do seu coração e do seu amor. O Sr. Mário a quem jamais gostou de externar seus sentimentos com palavras, mas, mesmo assim, por muitas vezes, ouviu-se ele dizer que aquela obra encerrava com “chaves de ouro” a sua longa vida profissional. Foi realmente o seu último trabalho, alguns meses após completá-lo, foi vítima de um enfarte, deixando-o parcialmente paralítico. Para pouco tempo depois partir para o plano espiritual.

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